Nos últimos anos, o termo “incel” se tornou cada vez mais conhecido, especialmente em debates sobre masculinidade, comportamento online e violência. Esse termo, que se popularizou após o lançamento da série Adolescência, da Netflix, traz à tona questões perturbadoras sobre o impacto das redes sociais na formação de ideais misóginos. A série, que se tornou um sucesso mundial em 2025, foca não só em questões de violência, mas também em como as narrativas de rejeição social e frustração sexual são alimentadas e amplificadas por plataformas digitais. Ao explorar a vida de Jamie Miller, um jovem envolvido em um crime, Adolescência levanta reflexões sobre a masculinidade tóxica e o crescente fenômeno incel.
Criado nos anos 90, o termo “incel” é a abreviação de “celibatários involuntários”. O conceito refere-se a indivíduos, geralmente homens, que se sentem incapazes de iniciar ou manter relacionamentos amorosos e sexuais. A ideia central dos incels é a crença de que são socialmente excluídos e que, por isso, são rejeitados pela sociedade, especialmente pelas mulheres. Em muitos casos, essa frustração é acompanhada de um ressentimento profundo e uma visão distorcida das relações humanas. No universo das redes sociais, muitos desses indivíduos formam grupos onde se compartilham experiências de fracasso social e sexual, criando uma espécie de bolha de validação e, frequentemente, de misoginia.
A série Adolescência não apenas toca nesse universo, mas o coloca como um dos pilares centrais de sua narrativa. A história segue Jamie Miller, um adolescente de 13 anos, que se vê envolvido em um caso de assassinato na escola. A série usa esse ponto de partida para explorar como a solidão e o sentimento de rejeição podem moldar a psicologia de um jovem, levando-o a se alienar ainda mais da sociedade. Esse isolamento emocional, como visto no personagem, reflete os dilemas enfrentados por muitos jovens que se identificam com os incels. A produção vai além da crítica superficial e propõe uma análise profunda das raízes desses sentimentos.
Um dos aspectos que mais chama atenção em Adolescência é como a série aborda as influências externas que afetam a formação do comportamento de seus personagens. No caso de Jamie, os discursos misóginos e conservadores presentes tanto no ambiente familiar quanto nas interações online que ele tem, ajudam a construir a base para suas ações impulsivas e violentas. Esses discursos, característicos dos grupos incels, tratam as mulheres como seres superficiais, interesseiras e manipuladoras, responsáveis pelas frustrações masculinas. Essa visão distorcida da realidade, muitas vezes alimentada por fóruns e redes sociais, tem um impacto devastador no desenvolvimento emocional de indivíduos vulneráveis.
A relação entre o comportamento dos incels e a violência também é um tema abordado com profundidade na série. A crescente insatisfação sexual e a frustração em relação às mulheres muitas vezes se transformam em um comportamento agressivo e, em casos extremos, em atos de violência. No caso de Adolescência, a narrativa se inspira em casos reais de violência juvenil envolvendo adolescentes armados. Os criadores da série, Stephen Graham e Jack Thorne, destacam que a obra foi criada para causar reflexão sobre como as questões de masculinidade, rejeição e solidão estão interligadas com comportamentos destrutivos. A história de Jamie, portanto, se torna um reflexo de um fenômeno crescente, alimentado por uma cultura de ódio e incompreensão.
É importante destacar que o fenômeno incel não ocorre apenas no contexto de uma série de ficção. Na realidade, grupos incels têm se tornado cada vez mais visíveis nas redes sociais, onde propagam uma ideologia de ódio e vingança contra as mulheres. Esses grupos têm ganhado força ao longo dos anos, à medida que os sentimentos de frustração e desesperança se intensificam entre os jovens que se sentem marginalizados. As redes sociais, ao invés de servirem como um meio de integração e desenvolvimento social, muitas vezes se transformam em um espaço onde discursos de ódio se tornam cada vez mais radicais e perigosos.
Adolescência não apenas expõe esse problema, mas também questiona a responsabilidade das plataformas digitais e da sociedade em geral na construção desses ambientes tóxicos. A série destaca como as interações online podem criar um ciclo vicioso de negatividade e alienação. Para os jovens como Jamie, essas plataformas servem como espaços onde eles podem se sentir compreendidos e aceitos, mas ao mesmo tempo, são alimentados por ideias que reforçam seu isolamento e impotência. Isso cria um terreno fértil para o desenvolvimento de comportamentos agressivos e violentos.
A série também sugere que a solução para o problema dos incels e da masculinidade tóxica não está apenas em medidas externas, como a censura nas redes sociais, mas em uma mudança profunda na educação emocional dos jovens. A ideia de que a frustração e a solidão podem ser combatidas com compreensão e apoio emocional é um dos pontos que Adolescência tenta destacar. Ao apresentar personagens como o pai de Jamie, interpretado por Stephen Graham, a série propõe que a reflexão sobre o comportamento masculino e as pressões sociais sobre os homens deve começar dentro de casa, no ambiente familiar.
Em resumo, a série Adolescência não só trouxe à tona o fenômeno incel, mas também desafiou o público a pensar sobre como os fatores sociais, digitais e familiares podem impactar a formação dos valores e comportamentos dos jovens. O termo incel, que ganhou notoriedade nos últimos anos, não é apenas uma palavra para descrever um grupo marginalizado de homens, mas um reflexo de uma crise maior, que envolve a desconexão emocional, a solidão e a dificuldade de lidar com a pressão da sociedade contemporânea. Por meio de uma narrativa complexa e envolvente, Adolescência oferece uma oportunidade para debater questões fundamentais sobre masculinidade, identidade e os perigos das bolhas digitais.
Autor: Friedrich Nill
Fonte: Assessoria de Comunicação da Saftec Digital