Inteligência artificial abre nova disputa no mercado musical sobre direito à própria voz

Ellen Sundalen
By Ellen Sundalen

Ferramentas capazes de imitar cantores ampliam debate sobre consentimento, direitos autorais, identidade artística e remuneração pelo uso de vozes digitais.

A inteligência artificial está abrindo uma nova frente de disputa na indústria musical: quem pode autorizar o uso da voz de um cantor por sistemas capazes de reproduzi-la digitalmente? O avanço das ferramentas de geração de música permite criar em poucos minutos canções que lembram o estilo, a interpretação e até características vocais de artistas conhecidos. O problema começa quando essa reprodução ocorre sem consentimento e o resultado é distribuído ou monetizado como uma nova gravação.

A discussão voltou ao centro do mercado em setembro depois de quatro músicos, entre eles Jason Isbell e David Lowery, apresentarem uma ação coletiva contra a Suno, uma das principais plataformas de geração musical por inteligência artificial. Os artistas acusam a empresa de permitir a criação de músicas que imitam as suas identidades e características artísticas sem autorização. A Suno contesta as acusações e afirma que desenvolve ferramentas destinadas à criação de música nova e original. (Reuters)

No Brasil, o assunto também ganha importância porque a voz não envolve apenas direitos sobre uma composição ou uma gravação. Especialistas ouvidos pela revista Veja destacam que a voz pode ser protegida como um direito da personalidade, pertencente ao próprio intérprete. A publicação relata ainda que músicas produzidas com inteligência artificial já levaram à retenção de cerca de R$ 50 mil no Ecad por dificuldades relacionadas à identificação dos titulares dos valores. (VEJA)

Por que a inteligência artificial está provocando uma disputa sobre a voz dos cantores?

A tecnologia de clonagem vocal permite produzir uma réplica digital capaz de cantar frases e melodias que nunca foram efetivamente gravadas pelo artista original. Dependendo da qualidade do sistema e do material utilizado como referência, o resultado pode tornar-se suficientemente convincente para que parte do público associe imediatamente aquela interpretação a uma pessoa real.

Essa possibilidade altera uma lógica histórica do mercado fonográfico. Antes, para lançar uma nova interpretação com a voz de determinado cantor, era necessário que o próprio artista realizasse a gravação ou que fosse utilizado material previamente registrado. Agora, um sistema pode produzir uma performance sintética sem que o intérprete entre num estúdio ou sequer saiba que a música está a ser criada.

A ação apresentada contra a Suno mostra como a discussão está a migrar da tecnologia para os tribunais. Jason Isbell, David Lowery, Guy Forsyth e Eduardo Calle alegam que a plataforma teria utilizado indevidamente elementos associados às suas identidades para permitir a geração de músicas semelhantes às suas interpretações. Eles procuram transformar o processo numa ação coletiva e pedem, entre outras medidas, que a utilização considerada indevida seja interrompida. (Reuters)

O caso possui uma característica importante. A disputa não está centrada exclusivamente no copyright das músicas originais. Os músicos também invocam direitos relacionados à própria identidade, argumentando que um artista continua tendo interesse jurídico sobre a utilização comercial da sua personalidade mesmo quando não é proprietário de todos os direitos autorais sobre uma determinada gravação. (Reuters)

Essa distinção ajuda a entender por que a voz se tornou um dos assuntos mais complexos da inteligência artificial aplicada à música. Uma composição possui autores e direitos específicos; uma gravação possui outros titulares; e a voz de quem interpreta aquela obra acrescenta uma terceira dimensão. Uma faixa produzida por IA pode, portanto, levantar diferentes questões jurídicas simultaneamente.

As próprias plataformas de streaming começaram a responder ao problema. O Spotify informa que pode remover músicas que imitem a voz de outro artista sem autorização, incluindo conteúdos produzidos através de clonagem por inteligência artificial. A política abrange inclusive lançamentos que não utilizem o nome do cantor nos créditos, mas contenham uma réplica claramente reconhecível da sua voz. (Spotify)

O que acontece quando um cantor autoriza o uso da própria voz pela IA?

A inteligência artificial não precisa necessariamente funcionar contra os interesses dos artistas. A mesma tecnologia que permite uma imitação não autorizada também pode ser utilizada mediante consentimento para criar novas versões, traduções, colaborações e experiências musicais. Nesse cenário, a discussão deixa de ser simplesmente sobre proibir a IA e passa a envolver quem autoriza, como autoriza e quem recebe pela utilização.

Existem experiências que apontam nessa direção. A Veja cita o caso do cantor Lauv, que utilizou inteligência artificial para criar uma versão em coreano de “Love U Like That” preservando características da sua própria voz. Nesse caso, a tecnologia foi incorporada ao trabalho artístico com participação e autorização do intérprete, demonstrando uma utilização muito diferente de uma clonagem realizada por terceiros sem consentimento. (VEJA)

O mercado fonográfico também começa a construir modelos comerciais baseados nessa lógica. Em 9 de setembro, a Suno lançou novos sistemas de geração musical em colaboração com Warner Music Group e BMG. Os acordos permitem desenvolver produtos utilizando obras licenciadas de artistas participantes, e a empresa afirma que pretende avançar com ferramentas baseadas num modelo de adesão voluntária dos próprios artistas. (Reuters)

Esse movimento é particularmente relevante porque sugere uma possível mudança de estratégia. Depois de anos marcados por conflitos entre empresas de IA e titulares de direitos, parte da indústria começa a experimentar sistemas em que gravadoras, artistas e empresas tecnológicas estabelecem previamente as condições de utilização.

Nesse modelo, um cantor poderia autorizar uma réplica digital da sua voz para finalidades determinadas e receber uma remuneração pela exploração comercial. Poderia permitir, por exemplo, versões de uma música noutros idiomas, mas proibir a utilização da voz para novas composições. Também seria possível estabelecer limites de duração, territórios, plataformas e tipos de conteúdo.

A autorização, portanto, torna-se o elemento central. Não se trata apenas de perguntar se a inteligência artificial consegue reproduzir determinada voz, mas se existe permissão para utilizar aquela identidade artística e quais condições foram estabelecidas para essa utilização.

Essa lógica pode criar uma nova categoria de ativos no entretenimento. Além dos direitos sobre músicas, gravações, imagem e marcas, artistas poderão negociar comercialmente réplicas digitais autorizadas da própria voz, desde que contratos e legislação consigam estabelecer limites suficientemente claros.

Como o direito à própria voz pode mudar a indústria musical?

No Brasil, o debate possui particularidades jurídicas. Especialistas em propriedade intelectual apontam que a voz pode ser enquadrada entre os direitos da personalidade protegidos pelo ordenamento jurídico brasileiro. Isso significa que uma discussão sobre clonagem vocal não precisa necessariamente depender apenas das regras tradicionais de direitos autorais. (VEJA)

A questão torna-se mais complexa quando a música artificial começa a gerar receita. Se uma faixa criada por IA acumular milhões de reproduções utilizando uma voz semelhante à de um cantor real, será necessário determinar se houve autorização, quem produziu a obra, quem possui direitos sobre ela e quem deve receber os valores decorrentes da exploração comercial.

A experiência relatada no mercado brasileiro mostra que esse problema já deixou o campo exclusivamente teórico. Segundo a Veja, aproximadamente R$ 50 mil relacionados a músicas com utilização de IA já ficaram retidos no Ecad diante da dificuldade de determinar corretamente a quem os valores deveriam ser destinados. (VEJA)

As plataformas também terão um papel importante. Serviços de streaming recebem diariamente enormes quantidades de novas gravações, o que torna difícil verificar manualmente se determinada voz foi gerada artificialmente ou se existe autorização do artista imitado. Sistemas de identificação e mecanismos de denúncia deverão tornar-se cada vez mais relevantes.

O Spotify já estabelece que um artista ou representante pode apresentar uma reclamação quando considerar que a sua voz está a ser reproduzida sem autorização. A plataforma afirma que analisa essas solicitações e pode remover conteúdos que violem a política contra imitação vocal não autorizada. (Spotify)

Ao mesmo tempo, pesquisadores trabalham em tecnologias destinadas justamente a identificar áudio sintético. Um estudo publicado em setembro apresentou uma abordagem baseada na análise de coerência temporal para distinguir gravações autênticas de conteúdos artificiais, incluindo fala e música com vocais. Isso indica que a disputa tecnológica poderá envolver tanto ferramentas de geração como sistemas de detecção. (arXiv)

O futuro da música com inteligência artificial provavelmente será definido por essa combinação de tecnologia, contratos, legislação e políticas das plataformas. A possibilidade de criar vozes digitais dificilmente desaparecerá; pelo contrário, os sistemas deverão tornar-se progressivamente mais convincentes e acessíveis.

Por isso, a pergunta central para a indústria já não é simplesmente se a IA será utilizada na música. O desafio passa a ser estabelecer quem controla a identidade vocal de um artista, em que circunstâncias ela pode ser reproduzida e como o intérprete será remunerado quando autorizar essa utilização.

Os acontecimentos de setembro mostram os dois caminhos possíveis. De um lado, músicos recorrem aos tribunais contra usos que consideram não autorizados. Do outro, empresas de inteligência artificial e grandes grupos musicais começam a construir sistemas licenciados e voluntários. A resposta sobre quem tem direito à própria voz poderá definir não apenas os próximos processos judiciais, mas também um novo modelo de negócios para toda a indústria fonográfica. (Reuters)

Fontes: Veja — O novo embate entre cantores e a IA: quem tem direito à própria voz? · Reuters — músicos processam Suno por alegado uso de identidade artística em IA · Reuters — Suno lança novos modelos em parceria com Warner Music e BMG · Spotify — política sobre músicas que imitam a voz de artistas

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