Data center do TikTok no Ceará chega a R$ 200 bilhões e vira maior projeto do tipo no Brasil

Complexo no Pecém, construído em parceria com a Omnia e a Casa dos Ventos, também enfrenta questionamentos ambientais de comunidades indígenas da região

O maior data center já anunciado no Brasil está sendo erguido no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará, a cerca de 60 quilômetros de Fortaleza. O empreendimento pertence à ByteDance, controladora do TikTok, e representa o primeiro investimento da empresa chinesa em um data center na América Latina, com obras iniciadas em janeiro de 2026 e operação prevista para o terceiro trimestre de 2027.

O aporte inicial do projeto é de R$ 50 bilhões, valor que já faz dele o maior empreendimento do gênero no país. Mas, segundo reportagens recentes, a companhia chinesa já sinalizou o compromisso de ampliar a capacidade da estrutura até 1 gigawatt, o que levaria o investimento total a mais de R$ 200 bilhões ao longo dos próximos anos.

A energia por trás do projeto

Um data center desse porte depende, antes de tudo, de um fornecimento constante de eletricidade. Na fase inicial, a unidade do Pecém vai demandar uma capacidade elétrica de 300 megawatts, volume comparável ao consumo de uma cidade de 2,4 milhões de habitantes. Não é por acaso que o Ceará foi escolhido: o estado é o maior produtor de energia eólica do país, beneficiado pelos ventos constantes que sopram do litoral ao longo de todo o ano.

Para garantir esse abastecimento, a Omnia, plataforma de data centers do Pátria Investimentos responsável pela construção do empreendimento, fechou um contrato de 20 anos com a Casa dos Ventos, maior geradora privada de energia eólica do Brasil. A empresa vai investir R$ 4 bilhões na construção de parques eólicos com capacidade instalada de 700 megawatts. Vale explicar que a energia não chega de forma direta ao data center: ela é injetada no Sistema Interligado Nacional, e o empreendimento consome eletricidade da mesma rede, num modelo de compensação.

Um contrato de longo prazo com a ByteDance

Nenhum projeto desse tamanho avança sem demanda garantida, e o caso do Pecém não é diferente. Segundo o CEO da Omnia, Rodrigo Abreu, a aproximação com a ByteDance já vem de bastante tempo, favorecida pela presença forte do Pátria Investimentos no mercado asiático. O contrato entre as duas empresas deve durar entre 10 e 20 anos, ainda que o executivo não tenha detalhado o prazo exato em entrevistas recentes.

Enquanto a Omnia arca com cerca de R$ 10 bilhões em infraestrutura local, como terrenos, prédios, subestações de energia e sistemas de refrigeração, cabe à ByteDance a parte mais cara da conta: os equipamentos de tecnologia da informação, como servidores, GPUs e placas de memória, que somam outros R$ 50 bilhões e precisam ser importados, já que o Brasil não tem produção relevante desse tipo de hardware.

O modelo se repete em outros grandes projetos do setor no país. A Ascenty, maior operadora de data centers da América Latina, nasceu de uma joint venture entre a americana Digital Realty e a gestora canadense Brookfield. Já a Scala integra o portfólio da DigitalBridge, e a Elea foi adquirida pela gestora global I Squared Capital, mostrando que o financiamento por grandes fundos internacionais se tornou praticamente uma regra para empreendimentos dessa escala.

Incentivos fiscais viabilizam a obra

Outro fator decisivo para o projeto foi a escolha por instalar o data center dentro da Zona de Processamento de Exportação do Pecém, uma ZPE que oferece tratamento tributário especial a empresas voltadas ao mercado externo. Nessas áreas, é possível importar máquinas, equipamentos e insumos com isenção de tributos como PIS, Cofins, IPI e Imposto de Importação, o que reduz de forma significativa o custo de implantação de uma estrutura como essa.

A escolha pela ZPE também diminui a dependência do projeto em relação ao Redata, regime federal criado para suspender tributos sobre a importação de equipamentos de data center, cuja validade como medida provisória expirou em fevereiro de 2026 sem votação no Congresso. Atualmente, um projeto de lei para substituir o programa segue em tramitação no Senado, o que mantém uma parcela de incerteza sobre o cenário tributário do setor no médio prazo.

Protestos indígenas e questionamentos ambientais

Nem tudo em torno do projeto tem avançado sem resistência. Em agosto de 2025, indígenas do povo Anacé ocuparam a sede da Semace, órgão ambiental do Ceará, exigindo a suspensão do licenciamento da obra. Em abril deste ano, o mesmo povo bloqueou rodovias em Caucaia durante uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à região, o que levou ao cancelamento de última hora de uma passagem prevista pelo canteiro de obras.

Essa pressão ganhou reforço institucional em maio, quando o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União recomendaram que o data center não entrasse em operação antes de cumprir novas exigências ambientais. Os órgãos questionam, entre outros pontos, o volume de água previsto para a operação, estimado em 88 mil litros diários, quase três vezes mais do que havia sido informado inicialmente. A Omnia rebate as críticas, afirmando que os questionamentos partiram de um desconhecimento do projeto e que o consumo de água medido é baixo o suficiente para dispensar licenciamento específico em alguns estados.

Situações semelhantes já ocorreram em outros países que viram a chegada acelerada de data centers de grande porte. Em Querétaro, no México, moradores passaram a questionar o consumo de água de novos empreendimentos em meio a uma crise hídrica na região. Na Holanda, um projeto da Meta chegou a ser barrado em 2022 após críticas relacionadas ao uso de terras agrícolas, energia e água, tornando-se um debate nacional sobre os limites da expansão do setor.

O caso do Pecém reúne, portanto, praticamente todos os elementos que tornam o Brasil um destino atraente para investimentos bilionários em infraestrutura digital: energia renovável abundante, incentivos fiscais e parceiros globais dispostos a apostar no país. Ao mesmo tempo, o projeto também expõe as tensões locais que costumam acompanhar empreendimentos dessa escala, entre desenvolvimento econômico e preocupações ambientais de comunidades que vivem no entorno.

Fontes:
InvestNews
BPMoney
InfoMoney

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